sábado, 19 de novembro de 2016

Entrevista sobre o mundo da marioneta!

Anouck Plunian
por Filipa Mesquita

Num dos Encontros das Marionetas vadias fui convidada a responder a algumas perguntas, apesar das respostas serem difíceis e complexas, é sem dúvida um desafio fazer o processo de pensar e escrever sobre a marioneta!

1             Percurso pessoal
         Como descobriu a arte das marionetas? Porque escolheu tornar-se uma marionetista? Quando começou o curso de Interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo já sabia que gostaria de trabalhar com as marionetas?
Descobri a arte da Marioneta na minha cidade, em Vila do Conde, em meados dos anos 90 pululavam os workshops de teatro dança, de circo, e de teatro de formas animadas. Já queria à muito fazer teatro e nessa altura pertencia a vários grupos de teatro amador, ao Teatro Gérmen de Vila do Conde ao Varazim de Teatro, um ramo do Teatro do Noroeste de Viana do Castelo, que é uma referência hoje no panorama teatral da cidade da Póvoa de Varzim, ao grupo de Teatro do Espaço T no Porto, enfim fazia muitas experimentações sempre na procura de algo que me satisfizesse. Num encontro de pessoas também elas muito interessantes da qual me tornei amiga, tomei contacto com o Teatro de Formas Animadas de Vila do Conde desenvolvido pela Companhia Quinta Parede à data sediada em Vila do Conde. Foi uma experiência interessante que foi ganhando contornos mais sérios, profissionais e de entrega interior. Nessa altura já fazia teatro com um intuito mais profissional, e os objetos e a sua dimensão simbólica em palco eram para mim algo desafiante. Na Academia, uma escola de Teatro no Porto, onde estudava interpretação, fiz também parte de uma ópera dirigida pelo Italiano Cláudio Cinelli que me cativou imenso apresentada no Teatro Nacional de S. João. Chama-se “les enfants et les sortilleges”.
Ainda não tinha terminado o curso da Academia quando se perspectivava a possibilidade de na cidade de Vila do Conde existir um fundo Europeu e uma candidatura que poderia possibilitar o financiamento de um curso de teatro de formas animadas que viria a integrar durante dois anos e meio e que foi uma parte fundamental para o meu percurso. O curso foi algo apaixonante, muitos de nós tiveram uma entrega imensa, soberba, extenuante e apesar do desalento pelo modo como decorreu o seu desfecho, na dia em que o nosso curso de Marionetas terminava nascia das mãos de praticamente todos os seus alunos a Companhia da qual ainda hoje faço parte hoje não mais em Vila do Conde, o Teatro e Marionetas de Mandrágora, hoje parceira de duas cidades Gondomar e Espinho.
         Disse-me que também gosta muito da teoria sobre as marionetas : sobre o que está a pesquisar precisamente?
Interessa-me muito o porquê das coisas, o que esconde por detrás. Comecei por comprar num alfarrabista umas revistas velhas e bafientas que não interessavam a ninguém, falava de bonecreiros dos anos 60 e de repente estava fascinada por saber mais do mundo da marioneta em Portugal. Em Portugal não existe uma grande bibliografia sobre a história do teatro de marionetas e creio que existe muito por falar e fazer. Antes de importar modelos pré fabricados sou adepta de uma arqueologia da história no sentido de reconstruir a base de um trabalho que se foi esquecendo mas que nos pertence e que poderá consolidar um caminho único e próprio, nosso! Mas este tema é uma longa discussão!
Neste momento procuro fazer o percurso do Teatro das Marionetas no Sec. XX em Portugal, aprender com o que foi feito e o que foi desfeito!
O  interesse pela teoria nasceu mais em 2004, quando criei, como muitos de nós, o meu primeiro blog: Marionetas a Norte, que me arrependo até hoje de ter feito desaparecer.
Nessa altura comecei a pesquisar, a ler um pouco mais, na procura da história do teatro das marionetas a nível mundial e também ao nível local… Fui encontrando muito material e a cada porta que abria percebia, qua havia ainda mais para descobrir, ainda muito por dizer, por catalogar por dizer, por redescobrir…
Hoje mantenho o Blog http://teatroemarionetas.blogspot.pt/
         No início, qual era o projecto da companhia Teatro e Marionetas de Mandrágora? Como ele tem evoluído ?
O Teatro e Marionetas de Mandrágora é uma companhia profissional de teatro de marionetas com direção artística de Clara Ribeiro e Filipa Mesquita e direção plástica de enVide neFelibata.
A Companhia foi fundada em 2002, data que marca o início da nossa atividade profissional. Na simbiose de uma linguagem simbólica, que conjugue o património e legado tradicional e o pensamento e universo contemporâneo, nem sempre pacífica surge um elemento fundamental, a marioneta. Este elemento apoia-nos na procura de uma identidade cultural própria. O nosso objetivo é o de descobrir as potencialidades estéticas, plásticas, cénicas e dramáticas da marioneta em si mesma, como em relação com o ator e nessa descoberta explorar a dramaturgia que nos caracteriza. O de explorar a cultura e as culturas, a crença, a lenda, aliando-se à urbe, à exploração tecnológica, à velocidade da aldeia global.
Ao longo do nosso percurso artístico têm sido diversas as propostas quer nos públicos; adulto, jovem, escolar e familiar; quer na formação de base ou especializada. Uma das nossas grandes apostas é a digressão nacional e internacional dos projetos.
Descentralização, trabalho comunitário, criação em parceria e a valorização social e inclusiva são preocupações preponderantes no nosso quotidiano.
http://www.marionetasmandragora.com/
As marionetas no Porto e em Portugal
         Poderia fazer uma descrição curta do mundo das marionetas do Porto: quais são as companhias que existem? Quais são as características delas? 
Porto
Teatro e Marionetas do Porto
Limite Zero
Palmilha Dentada (Companhia de Teatro ) com projectos com marionetas
Teatro de Ferro
Festival internacional de Marionetas do Porto

Area Metropolitana
Teatro e Marionetas de Mandrágora (Gondomar|Espinho)
         Há ligações entre as companhias do Porto? Por exemplo, por alguns projetos comuns?
As ligações são sobretudo ao Nível dos Encontros e Festivais, creio que cada uma se vai pautando por um trabalho artístico e estético distinto que lhes permite afirmarem-se pela sua singularidade, creio que será mais aquilo que as diferencia, e esse é o facto que as torna unidas.
         Como nasceu o projeto das Marionetas Vadias ? Quem são os criadores dele? Como descreveria seus objectivos? 
Ali no centro do Porto, o mundo das marionetas é dialogado, esperado, inesperado.
Um desafio simples, experimentar as marionetas, num espaço sem compromisso, pela delicadeza, pela vontade descomprometida. Numa bela noite de Verão, um agradável ambiente noturno no centro da cidade, fascinados sem dúvida pela incerteza, tentando fazer acontecer algo de novo. Como é que isto se faz, sem comprometer, sem institucionalizar, sem intimidar, dando e partilhando o espaço entre profissionais, amadores, curiosos, interessados. Um desafio só ao alcance dos sonhadores.E assim aconteceram experimentações, diálogos, jogos e partilhas no que acima de tudo parte de um interesse comum entre gente com empenho no desenvolver de um diálogo. E num espaço onde o silêncio durante tanto tempo imperou saber falar é como aprender a falar.
O primeiro passo está lançado...agora é fazer acontecer a cada terça feira do mês num local inusitado do Porto e seus arrabaldes e colocar as marionetas no foco das nossas intenções.
Eu volto enquanto me quiserem ouvir! As Marionetas Vadias andam por aí!
A determinada altura, ao olhar em volta, dei por mim fascinado com o nascimento real desta "coisa". Bem hajam a Sandra Neves e o Ricardo Alves por terem ousado criar esta iniciativa!
         Estes encontros (Marionetas Vadias) permitem enfraqueçer muito a separação entre os atores e o publico: todos podem tornar-se ator. Para vos, isto é uma preocupação importante? Pensa que as marionetas podem ajudar pessoas que nunca foram atores para experimentar a expressão pela interpretação teatral? 
É algo descomprometido, na verdade não são só atores os que sobem ao palco, são gente anonima que experimenta sem categorização, a experimentação permite tud,o sem que o trabalho, o percurso, as qualidades ou os conhecimentos estejam a intervir, a serem salientados ou a perturbar!
         Disse-me que, como muitas coisas, e mais difícil de desenvolver a arte das marionetas em Portugal do que em outros países. Porquê? E principalmente por uma razão financeira que complica a criação de companhias e formações? Ou há também razões mais culturais e sociais ?
Não inteiramente, creio que muito já foi feito e muito está por fazer, é claro que é difícil, não significa que em outros locais não o seja também, a nossa sociedade é livre à pouco tempo(suspiro!), e pressionada por muitos lados, o que por vezes tolda a compreensão em relação à arte e à forma como a mesma pode ser vivenciada!
         Disseram-me que a Câmara Municipal do Porto tem desenvolvido uma política de apoio à cultura mais forte: tem  sentido que a arte das marionetas beneficia disto ?
Sim claro que sim, as perdas e as conquistas fazem-se diariamente, a arte das marionetas perdeu muito com o desaparecimento de pessoas como o João Paulo Seara Cardoso director do Teatro das Marionetas do Porto e de Isabel Alves Costa a directora do Festival Internacional de Marionetas do Porto. Creio que só agora os seus continuadores tiveram a oportunidade de lhe dar continuidade conforme era desejável quer seja pelo engrandecimento do Fimp e o seu regresso ao Teatro Rivoli quer seja pela dinâmica do Teatro das Marionetas do Porto e da existência do seu Museu no centro da Cidade.
         Há alguns festivais internacionais de marionetas no Porto ou perto (o EI Festival Internacional de Marionetas do Porto,  o EI Encontro Internacional de Marionetas de Gondomar). Quais são as ligações entre estes eventos e as companhias do Porto? Na sua opinião, o facto de fazer vir companhias doutros paises é uma ajuda para fazer conhecer as marionetas? Para descobrir formas novas da arte das marionetas?
Tenho a oportunidade de ser a directora do EI Marionetas, são Festivais importantes que se complementam quer no tempo, quer na dimensão, quer na apresentação de propostas nacionais e internacionais.
A possibilidade de apresentar propostas internacionais permite sobretudo projectar o nosso trabalho de dentro para fora e de fora para dentro dando a dimensão de um todo o que permite ao público entender a real dimensão do universo da criação do teatro das marionetas que na apresentação de ideias, conceitos, técnicas os estéticas.

As marionetas como forma artística
         Eu li muitas vezes que as marionetas permitem de fazer muitas inovações de forma e permitem também fazer muitas ligações com os outras artes (musica, dança etc). Está de acordo? Poderia explicar um pouco as particularidades das marionetas como forma artística e as implicações para os marionetistas : O que torna um marionetista bom? Quais são as dificuldades deles? 
Sendo que a arte das marionetas está profundamente ligada á manipulação de figuras e objetos, à colocação dos mesmos em movimento dramático, existe a necessidade de estar em comunicação entre a dramaturgia e as outras artes. A marioneta não é mais do que a forma como o artista de palco, comunica com o seu público, é uma técnica que se domina para se concretizar este diálogo.
Quanto a mim a única situação muito negativa é a falta de domínio técnico por não existir a formação de artistas interessados mas com dificuldades em dominar técnicas de manipulação de marionetas o que torna uma barreira quase intransponível.
         Eu ouvi que a prática das marionetas tem mudado muito: antes os atores esconder-se-iam, enquanto hoje em dia eles estão no palco, com as marionetas. Como explicar esta evolução? Quais são as implicações para os marionetistas? 
A marioneta está em palco como o ator, com o ator, atrás, ao lado ou à sua frente, faz parte da comunicação, apenas as formas tradicionais se mantêm em relações muito fixas e pré estabelecidas…
         Em geral, quais são as maiores evoluções que a arte das marionetas tem atravessado? E quais são aquelas que ela esta a atravessar hoje? 
Creio que existem artistas que se esforçam por criar visões não apenas sobre a s suas obras mas por mostrar, dar a conhecer a verdadeira dimensão, as verdadeiras potencialidades da arte das marionetas. Hoje existe uma comunidade emergente, uma arte a descobrir em vastas dimensões, existe acima de tudo mais interesse, mais pesquisa, mais experimentação, e esse acontecimento é algo de profundamente positivo.

Filipa Mesquita

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