domingo, 7 de outubro de 2012

Registo - José Gil

Deixo-vos aqui o testemunho de um dos bonecreiros e de como iniciou o seu trabalho com o Teatro Dom Roberto.


Eu (José Gil) conheci o Mestre António Dias por volta de 1982, quando este veio fazer uma apresentação do teatro Dom Roberto na minha escola, a convite da professora Lúcia Serralheiro (fundadora do grupo Pequenos Comediantes de Trapos e Farrapos em Alcobaça). Apesar de já ter visto várias vezes nas praias da Nazaré e em São Pedro de Moel o espectáculo Dom Roberto, nunca tinha tido a oportunidade de falar com o mestre António Dias. Nessa altura a professora Lúcia apresentou-me no fim do espectáculo ao “fantocheiro” António Dias, que pela minha memória, achou-me piada mas não me deixou entrar na barraca dele. Apesar de ter estado a falar comigo durante algum tempo, só me lembro de ele me dizer para eu ver o espectáculo com muita atenção (coisa que sempre fiz) até lhe disse que já sabia como é que ele fazia “aquilo” do touro e os forcados ao mesmo tempo (ele riu) a minha memória deste episódio fica por aqui.

Um ano depois (1983) aquando do 7º Encontro Nacional de Teatro de Fantoches em Alcobaça, organizado pela professora Lúcia Serralheiro e pelo grupo Pequenos Comediantes de Trapos e Farrapos, o António Dias também veio fazer o seu espectáculo ao encontro de fantoches na escola secundária nº1 (agora escola Inês de Castro).

Depois de acabar o espectáculo ele estava a descansar perto da porta do pavilhão que servia de sala de espectáculos e a professora Lúcia Serralheiro chamou-me e foi comigo ter com o mestre António Dias, onde mais uma vez me apresentou como um rapaz com muito jeito para os bonecos e o convenceu a mostrar-me a palheta e a ensinar-me a usa-la. (na altura pelo que a professora Lúcia diz, o Dias estava proibido de ensinar a “palheta” às crianças pelo FAOJ, não sei se é verdade ou não). Mas lembrou-me perfeitamente de ficar de boca aberta quando ele colocou a palheta na boca e fez o som dos robertos. Depois disse-me que era difícil e que eram preciso muito treino. Depois para meu espanto e da professora Lúcia, ele tirou a palheta da boca e deu-ma, agradeci, e coloquei-a logo na boca para tentar fazer a mesma coisa, mas não consegui. Ainda me lembro da cara da professora Lúcia que ficou enojada por eu ter colocado logo a palheta na boca. A partir daí nunca mais parei de tentar falar com a palheta e um ano depois encontrei o António Dias na Nazaré ou nas Caldas da Rainha, já não sei bem, com o Esteves, onde fui lhe mostrar que já era capaz de falar com a palheta, lembro-me do Esteves ter ficou chateado, por eu saber falar com a palheta, mas não me lembro de muita coisa desse encontro.

Em 1986 o dias faleceu na semana entre 6 e 12 de Setembro de 1986, mas não sei precisar a data (o João Paulo é capaz de saber pois ele é mais velho), depois continuei sempre a trabalhar com marionetas, mas nunca fiz o teatro Dom Roberto,(fiquei com um respeito tão grande pelo mestre António Dias e o Dom Roberto que achava que não estava há altura para o executar). Os anos foram passando e fui falando sempre com a “Palheta”, mas sem “montar” o espectáculo.

Assisti várias vezes ao Dom Roberto do João Paulo e mais tarde ao do Raúl Constante Pereira, aliás a primeira vez que vi o Raúl foi no Porto, não consigo precisar no tempo, mas tenho a memória de estarmos todos juntos numa esplanada e começarmos a falar com a palheta com os empregados do café, provavelmente num festival qualquer.

Depois de muita insistência por parte dos meus colegas de trabalho e de vários amigos, construi os bonecos do “barbeiro” e da ”tourada” com a ajuda da minha mãe que me fez os fatos.

Comecei a fazer o teatro Dom Roberto em 1998. Estreei em Alcobaça com as peças “O Barbeiro” e “A Tourada”, que fiz de memória e de algumas notas que tinha tirado para não me esquecer. Um ano mais tarde recuperei “Castelo dos Fantasmas”. Ao ver o filme Dom Roberto reparei que no início do filme, por trás do genérico aparece o espectáculo do Castelo dos Fantasmas.

Também tive a oportunidade de falar com o Raúl Solnado pensando que ele podia ter mais alguma informação sobre o Dias, mas quase não teve contacto com ele durante as filmagens do filme Dom Roberto. Nesse mesmo dia fiz o “Barbeiro” e a “Tourada” para o Raúl Solnado na Oficina dos S.A.Marionetas. Devo dizer que foi um momento único para mim, no final o Raúl Solnado diz-me: ”Ainda bem que há sempre algum carolas que não deixa morrer estas coisas”, neste caso já somos cinco carolas.

“Rosa e os três Namorados” recuperei a partir do texto do Azinhal Abelho. Destas duas últimas peças, lembro-me de a professora Lúcia dizer que o António Dias dizia que fazia com outra pessoa dentro da barraca, para ter mais fantoches ao mesmo tempo.

Também na entrevista a Cesário Cruz Nunes feita pelos alunos da professora Lúcia ele diz que chegou a trabalhar com o Dias, confirmando então o que o Dias dizia sobre um tal de rapaz alto que o chegou a ajudar nos espectáculos (também informação da professora Lúcia).

Ainda sobre o mesmo assunto, na praia de São Pedro de Moel, o concessionário das barracas e do bar da praia era amigo do António Dias. Hoje, a filha recorda que por vezes o Dias aparecia com outro amigo e faziam os dois ao mesmo tempo dentro de uma barraca maior o espectáculo, sempre acompanhado pelo fotografo do cavalinho!?!. (esta informação foi recolhida de várias entrevistas que eu e a Sofia Vinagre fizemos, com o intuito de procurar mais informação sobre o teatro Dom Roberto).

Entretanto já consegui juntar por duas vezes em Alcobaça no festival marionetas na Cidade, as pessoas que fazem o teatro Dom Roberto: João Paulo Seara Cardoso do Porto, Raúl Constante Pereira do Porto, Manuel Dias de Évora, José Gil de Alcobaça(Eu) e o Jorge Soares de Lagoa.

Espero que tenha sido bastante explícito neste meu relato sobre a minha experiência com o Mestre Dias e o Dom Roberto.
Fica ainda aqui o link para a entrevista a Cesário Cruz Nunes outro homem que fazia o teatro Dom Roberto http://
www.samarionetas.com/robertos_entrevista_cesario_s.a.marionetas.htm
Abraços!!
José Gil

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