domingo, 7 de outubro de 2012

Registo - João Paulo Seara Cardoso

Testemunho de inestimável valor para a história do Teatro de Dom Roberto
Este testemunho vem na discussão sobre alguns conteúdos da Enciclopédia Internacional da Marioneta.


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Em 1981, num Encontro Nacional de Fantoches, vi pela primeira vez o Teatro Dom Roberto de Mestre António Dias. Nós, a malta nova e entusiasta, ficávamos fascinados e, no final das representações, lá íamos todos para junto do bonecreiro tentando descobrir os mistérios indecifráveis dos Robertos. Mas o Mestre guardava-os bem… E o Francisco Esteves, “guardião do templo”, sempre por perto, refreava os nossos ímpetos o mais que podia dizendo que aquilo era coisa “sagrada”. Bom, de volta a casa, os robertos ficaram-se-me colados no pensamento. Eu era, por essa altura, um interessado e estudioso de formas de teatro popular e o Teatro Dom Roberto configurava um extraordinário exemplo de teatro “democrático”, nesses tempos ainda imbuídos de um certo espírito pós-revolucionário. Senti que era necessário fazer alguma coisa para preservar aquele tesouro da nossa cultura. E decidi fazer o Teatro Dom Roberto. O que é certo é que, baseado nas notas que tinha tomado e, depois de muitas tentativas e ensaios, lá consegui fazer A Tourada. Um ano depois, em 11 de Setembro de 1982, apresentei a peça no Encontro Nacional de Fantoches de Aveiro, integrado num espectáculo do TAI –“ Trupe Maravilha”, perante o olhar incrédulo dos meus amigos marionetistas e do grande António Dias. A representação até correu bem, mas toda a gente deve ter sentido um certo desconforto e deve ter tido a sensação de que alguma coisa tinha sido profanada. O Mestre Esteves criticou-me com alguma rudeza. Eu estava super nervoso e receoso mas, quando cheguei à porta do teatro, o Dias veio logo ter comigo. E eu pensei: “Estou feito!” Olhou para mim com aquele olho que ainda via alguma coisa e disse-me discretamente:” Você tem jeito”. Foi um alívio! O Mestre não me tinha dado uma paulada. Depois fomos os dois beber um copo e ele confessou que, apesar da “malta nova” insistir muito com ele, a sua arte não era coisa que se ensinasse assim sem mais nem menos, como alguns pretendiam. No meio da conversa, eu disse-lhe qualquer coisa deste género: “Ó Mestre, gostava muito que me ensinasse os Robertos, mas penso que seria também muito importante fazer um registo e um estudo do seu teatro. Lembre-se que você é o último bonecreiro profissional em actividade e esta tradição tão bonita corre o risco de se perder”. Ele concordou e adorou a ideia de vir até ao Porto para trabalharmos juntos. Como estava destacado no FAOJ (era funcionário do Instituto de Tecnologia Educativa – com ordenado mensal pela primeira vez na sua vida, graças ao Mestre Esteves ) e eu também aí trabalhava, combinamos tudo entre nós e eu apresentei uma proposta interna. Em Janeiro de 1983, o Mestre Dias chegava ao Porto para uma estadia de trabalho de 12 dias (que se viria a prolongar por mais 10), que previa espectáculos nos Jardins do Porto, que tinham tradição de Robertos e nos quais ele tinha actuado há muitos anos, encontros com grupos de teatro e associações, actuações nas escolas e sessões de trabalho para registo das peças e da sua longa vida de bonecreiro. Foi o grande momento de merecida consagração da sua vida; os jornais e a televisão deram excelente cobertura e o Mestre foi extraordinariamente acarinhado pelas pessoas que foi conhecendo. O maior estudioso da história do Porto, Germano Silva, que o conhecera nos anos 40, escreveu no Jornal de Notícias:”Com o seu capote surrado, com a cegueira velando-lhe os olhos, continua ele, sem parança, cavalgando as asas do sonho, por todo este país que ainda não pagou a quem mais deve”. Para mim e para ele foram dos melhores tempos das nossas vidas. Trabalhávamos bastante, mas sobrava sempre um pouco de tempo para irmos a uma tasquinha onde tagarelávamos agarrados a um copo de vinho. Como eu gostava daquele homem… Era de uma generosidade enorme! E lá fomos fazendo o registo das peças, em vídeo. Quando chegou a altura de gravar “A Rosa e os Três Namorados”, que ele já não fazia há muitos anos, ensinou-me pacientemente o meu papel de “moço-ajudante” e lá nos metemos os dois dentro da barraca… foi uma boa sensação!
Recordo-me também que andamos à procura nas retrosarias antigas do Porto da famosa fita de nastro em que deviam ser feitas as palhetas (“é aquela que tem um gatinho…”). E encontramos. Fabriquei-lhe meia dúzia de palhetas segundo as suas recomendações, porque ele já estava quase cego e não era capaz de o fazer. Nos finais de Janeiro despedimo-nos na estação de Campanhã e o Mestre voltou para Lisboa.
Ficamos ligados para sempre. Ele tinha um grande desgosto que o seu filho Zé não quisesse aprender os Robertos e eu, provavelmente, fui um pouco a compensação para a sua mágoa. Ainda veio algumas vezes ao Senhor de Matosinhos, por iniciativa do Queiroga Santos, e era nesses ambientes que o Mestre se sentia bem. Visitava-o em Lisboa frequentemente. Nunca me deixou ir a sua casa (“é muito pobre, percebe…”). Encontrávamo-nos num tasco próximo e púnhamos as conversas em dia. A sua saúde não andava nada boa desde que, há alguns anos atrás, tivera um AVC que lhe afectara a visão e a fala. A mulher também estava muito mal, por essa altura. E o filho andava metido em maus caminhos… Às vezes, pedia-me dinheiro para medicamentos e para os estudos do filho.
Quando o Mestre faleceu, em Agosto de 1989, na sequência de um incêndio que ele próprio tinha provocado na casa, devido à falta de visão, eu estava de férias, incontactável. Não soube de nada. Quando cheguei a casa, tinha um telegrama com a notícia da morte que tinha ocorrido há quinze dias. Claro que chorei, porrrrra, eu gostava mesmo daquele homem. Chapou-se-me no pensamento a fachada da sua pobre casa a arder e não pude deixar de recordar que o fogo também já tinha levado para o céu os “diabos” de Santo Aleixo e o “diabólico” Judeu. Aquele diabinho vermelho que ardia dentro da mala do Mestre estava a rir-se. Ele também ia para o céu, para junto dos anjos. Benditos bonecos, bendito homem.

De uma forma muito sucinta (e, desculpem, um pouco emocionada) – um dia gostaria de escrever mais desenvolvidamente sobre esta e outras questões – é esta a história do meu relacionamento com Mestre António Dias e a origem do meu amor e dedicação aos robertos, que viria a mudar a minha vida – foi nesta altura que decidi dedicar-me em exclusivo às marionetas.
Conclusão: as frases que constam na Encyclopedie, “… Mestre António Dias, que transmitiu a sua experiência a João Paulo Seara Cardoso, que o acompanhou até ao fim da sua carreira e recriou todo o seu reportório” e “… António Dias, que com o seu Teatro Dom Roberto, constituiu uma fonte de inspiração para as jovens gerações, transmitiu o seu reportório e o seu testemunho a João Paulo Seara Cardoso”, estão CORRECTÍSSIMAS.
Não há, pois, nenhuma “inverdade” nem nenhuma “desonestidade intelectual” nas afirmações! Existem, na verdade, mais três pessoas que fazem os robertos em Portugal: o José Gil, o Raul Pereira e o Manuel Dias. Todos começaram a fazer os seus espectáculos depois da morte de Mestre Dias. O Raul foi o primeiro. Aprendeu comigo e confesso que me custou, foi como se me tirassem um filhinho das mãos mas, pronto, eu sabia que teria que ser assim. Tenho um orgulho enorme da nossa “confraria dos robertos” e senti-me imensamente feliz quando, pela primeira vez, actuamos os quatro em frente ao Mosteiro de Alcobaça.
E pronto, amigo Gama, como vês, o teu excelente post trilingue também contém erros “grosseiros”. Este que acabo de escrever também os poderá ter. Ninguém é perfeito, isso seria uma chatice.
Como disse o Beckett: “Try again. Fail again. Fail better.”
Um abraço para todos."

João Paulo Seara Cardoso

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